Morreu António-Pedro Vasconcelos, realizador português que acreditava no cinema para todos

     O realizador português António-Pedro Vasconcelos, autor de filmes como "O Lugar do Morto" e "Os Imortais", morreu em Lisboa, os 84 anos, revelou a família em comunicado.

       Escrito por Tiago Almeida

📷 Jornal de Notícias

       O realizador António-Pedro Vasconcelos, que morreu aos 84 anos, foi um dos principais nomes do cinema português das últimas décadas, grande crítico do modelo de apoio ao setor, considerava-se um dissidente e quis filmar até ao fim. Nascido em Leiria em 10 de março de 1939, António-Pedro Vasconcelos foi realizador, produtor, crítico e professor, tendo fundado o Centro Português de Cinema, como indica a biografia patente na Academia Portuguesa de Cinema.

       Na lista dos 40 filmes portugueses mais vistos desde 2004 figuram três com a sua realização: Call Girl, de 2007, visto por mais de 230 mil espectadores, A Bela e o Paparazzo, de 2010, e Os Gatos Não Têm Vertigens, de 2014 - os três escritos pelo argumentista e, agora, realizador Tiago R. Santos.

       Antes da viragem do século, realizou vários filmes que se tornaram em sucessos de bilheteira, como O Lugar do Morto, em 1984, ou Jaime, de 1999, que foi premiado no Festival de Cinema de San Sebastián, em Espanha. Vencedor de múltiplos Globos de Ouro e prémios Sophia, em Portugal, foi ainda distinguido em 2020 pela Academia Portuguesa de Cinema com um prémio de carreira.

       “Aquilo que me fez apaixonar pelo cinema na minha adolescência e depois na minha juventude, aquilo que permaneceu, que depois se chamou cinefilia, foi precisamente a minha paixão por esses grandes autores que faziam filmes comoventes e que despertavam toda a espécie de emoções e sentimentos nas pessoas, desde o Chaplin a Hitchcock, passando por Capra, Fellini, Truffaut e até Scorsese”, contou à Agência Lusa em 2012.

       “Eu mantive-me fiel àquilo que foi a minha paixão de juventude, que foi o cinema que me comove, que me transforma, que é a experiência única de me sentar numa sala de cinema e ser tocado por um filme”, afirmou, em 2012, altura em que nomeou João César Monteiro (1939-2003) como o cineasta mais interessante da sua geração.

       Na mesma entrevista, António-Pedro Vasconcelos repetiu algo que já vinha a dizer há anos em relação ao cinema nacional: “Afunilou-se num determinado tipo de gosto”, numa herança que já vem do Estado Novo de determinação do “bom gosto” através da atribuição de financiamento.

       “É sempre bom que os filmes portugueses tenham prémios lá fora. Percebo que os realizadores premiados estejam felizes com isso, mas nós temos de começar por ter um cinema em que os portugueses se revejam”, disse.

       A par do cinema, tendo assinado vários êxitos de bilheteira, como A Bela e o Paparazzo (2010), António-Pedro Vasconcelos também foi crítico de literatura e cinema, cronista e comentador televisivo, com forte intervenção cívica, como escreveu José Jorge Letria no livro de entrevista com o realizador, Um cineasta condenado a ser livre (2016).

       No comentário televisivo, António-Pedro Vasconcelos, adepto do Benfica, integrou o programa de debate desportivo Trio d’Ataque, da RTP, do qual saiu em 2011.

       Em 1992, foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo então Presidente da República, Mário Soares, para quem tinha feito os tempos de antena.

       O Allmedia endereça as mais sentidas condolências à família e amigos do cineasta, em especial à Patrícia e à Teresa.

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